Mulheres questionam padrão de beleza e aderem a não-depilação

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Pinturas e cortes de cabelo, piercings, tatuagens. Todas as formas de modificação do corpo são um afastamento do estado natural, assim como a depilação. A prática de se depilar é um dentre vários padrões sociais que estabelecem o ‘conceito’ de mulher. Mesmo sem ser uma tendência da maioria, a não-depilação reflete uma mudança de comportamento que muitas das vezes está ligado a ideologias feministas.

JC – Maria Eduarda Bravo

Desde os seus 14 anos, a artista plástica Joana Liberal, de 27, deixou lâmina e cera de lado e aderiu à não depilação. “Esta é a época quando todo mundo estava começando a ter pelos. Todas as minhas amigas estavam se depilando, eu também me depilava e já sabia que eu não ia fazer isso todo mês, sabe? Que ia demorar um pouquinho mais, porque não era muito prazeroso para mim”, conta a artista.

Não foi fácil para Joana assumir publicamente a sua escolha. “Minha família toda se depila, então rolava uma crítica sempre direta. Minha mãe sempre foi ‘de boa’, meu pai ficava ‘que negócio feio’, ‘está parecendo um homem’, ‘vá se depilar’ e aí a gente sempre teve atrito.. E minhas irmãs também meio que ficavam paranoicas. Minha irmã depila os pelos dos dedos, sabe? Me libertei disso”.

Não foi só a recepção por parte da família da artista plástica que não foi das melhores. Amigos e estranhos seguiram na mesma direção: o preconceito. As cobranças sobre quando chegaria o momento de se depilar só cresciam.. E mesmo a escolha sendo da artista plástica, os olhares de reprovação causavam angústia.

“Aprendi a ignorar os olhares. Tem pessoas que comentam na hora, tem gente que faz cara feia. Antes magoava, mas agora não. Quando você se blinda, passa a não ligar mais para os olhares”, explica.

Assim como Joana, a estudante de Teatro Raissa Lemos, de 17 anos, que também deixou a depilação de lado, vê no estranhamento inicial das pessoas a possibilidade de refletirem sobre o que é imposição e o que é escolha de fato. Garante que nem se incomoda mais.

“Eu acho que os olhares são bons, porque dá pra ver quanto um simples ato de não se depilar impacta tanto as pessoas e que é tão forte assim o pelo que eu tenho embaixo do braço. As pessoas não esperam que você faça isso e quando você faz ,é totalmente a quebra dos padrões”, resume.

Por que tirar tudo, afinal?

Muitos fazem a associação de uma mulher que não se depila à imagem de alguém descuidada, suja. Tudo porque a depilação acabou, historicamente, sendo relacionada como indício de vaidade e até de asseio.

Lizandra Souza, administradora da página no Facebook ‘Diários de uma Feminista’, que conta com mais de 700 mil curtidas, alerta que a imagem estética da mulher precisa se encaixar em moldes antinaturais de feminilidade e biologia. “Falar sobre pelos no corpo feminino, é falar sobre estética, mas, sem dúvida, é falar, especialmente, sobre gênero e relações socioculturais desiguais de poder que influenciam a visão social díspar direcionada a homens e mulheres que têm e mantêm pelos no corpo”, ressalta.

A especialista em gênero, desenvolvimento e políticas públicas Paty Sampaio, explica o por que da cobrança dos homens para que elas estejam sempre livres de pelos.

“O julgamento tem muito a ver com a cultura que a gente vive. Os homens não são julgados, porque eles são os seres dominantes de uma cultura patriarcal. E essa mesma cultura fez com que várias outras nuances fossem colocadas como determinante. A higiene, por exemplo, evita que as mulheres tenham pelo. Pelo existe porque tem uma função fisiológica de proteção, mas as mulheres são negadas a ter isso”, explica Paty.

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