Homem mudo fica 4 meses preso no lugar de um que fala normalmente

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A Justiça às vezes erra. Quando erra, aquele que sofreu com o erro pede por correção. Não é o caso de João (nome fictício). Mudo, analfabeto e sem conhecimento de libras, ele ficou preso no lugar de outra pessoa, que fala normalmente, e não conseguiu pedir por justiça. Por quatro meses e 20 dias, ficou no Presídio de Segurança Máxima de Campo Grande identificado como Weslley Henrique Gonçalves Tavares, 20 anos, condenado por roubo e foragido da justiça. Após meses pagando por um crime que não cometeu, o homem de aproximadamente 30 anos finalmente ganhou a liberdade nesta sexta-feira (25).

Geisy Garnes, Marta Ferreira e Izabela Sanchez- Campo Grande News

Em março de 2016, Weslley foi preso pela primeira vez, por roubar um celular usando uma arma de brinquedo. Pelo crime, foi condenado a cinco anos e quatro meses no semiaberto, mas no dia 28 de outubro do mesmo ano, fugiu do pátio do Centro Penal Agroindustrial da Gameleira durante o banho de sol. Com isso, teve a prisão em regime fechado decretada.

Em janeiro deste ano, o mandado foi cumprido. É aí que João, nome ficctício para um personagem da vida real que ainda não foi identificado, vira Wesley por um erro ainda a ser desvendendado. As circunstâncias da prisão não foram ainda esclarecidas. As fotos dos dois sinalizam que a confusão possa ter relação com a semelhança física entre os dois.

Preso, João é enviado ao Estabelecimento Penal “Jair Ferreira de Carvalho”, a Máxima de Campo Grande, no dia 5 de janeiro. Lá, tinha bom comportamento, e diante das dificuldades de comunicação, nunca conseguiu se fazer claro. Além da mudez, há a suspeita de que ela tenham algum tipo de deficiência intelectual.

Os meses passaram e na segunda-feira, dia 21 de maio, o interno foi escoltado ao fórum da Capital para prestar depoimento sobre o envolvimento do verdadeiro criminoso em um outro roubo, cometido em 2016.

Na sala de audiência, o advogado de defesa do réu “verdadeiro” olhou para João e declarou de cara que aquele não era o seu cliente.

Foi a própria defesa de Weslley que procurou a 2ª Vara de Execução Penal – vara em que o cliente havia sido condenado pelo roubo – e comunicou a situação. Imediatamente o juiz pediu um novo exame de identificação. O resultado veio nesta quinta-feira (24), durante nova audiência, na qual o verdadeiro culpado pelo crime deveria explicar o porque fugiu.

“Deixamos a audiência dele por último e ligamos para o Instituto de Identificação pedindo urgência no resultado, tinha que sair o mais rápido possível”, detalhou o juiz Mário José Esbalqueiro Júnior, titular da 2ª Vara e responsável pelo caso.

O laudo trouxe a comprovação, mas também, um novo problema: “as impressões digitais foram consideradas divergentes”, contudo não era possível identificar quem efetivamente era João.

Além de passar mais de quatro meses preso no lugar de outra pessoa, cumprindo uma pena que não era sua, João não tinha documento ou registro no banco de dados de Mato Grosso do Sul. A liberdade é também desafio: “Eu perguntei se o nome dele era Weslley e ele fez sinal que sim, possivelmente o nome dele é esse mesmo, mas Weslley do que, e aonde mora, aí já não sabemos”, afirmou o juiz.

A liberdade é também desafio: “Eu perguntei se o nome dele era Weslley e ele fez sinal que sim, possivelmente o nome dele é esse mesmo, mas Weslley do que, e aonde mora, aí já não sabemos”, afirmou o juiz.

Para o juiz, umas das assistentes sociais da Máxima relatou que em entrevista, logo após a prisão de “Weslley”, desconfiou que havia algo errado e chegou a pedir a comparação de identidade, mas não obteve resposta. Foi necessária a intervenção judicial para que o laudo fosse entregue.

Ao Campo Grande News, o magistrado explicou ainda que o rapaz, de aproximadamente 30 anos, não sabe escrever, não sabe Libras, mas tem uma linguagem de sinais “própria” e consegue entender as perguntas perfeitamente. “Perguntei também se ele morava na cidade, ele chegou a falar não, mas é a única palavra que consegue falar”.

Com um sinal de “laço”, o “desconhecido” afirmou ao juiz que morava em uma fazenda e que conseguia apontar o local. Na esperança de encontrar qualquer vestígio da família ou da identidade do homem, o magistrado enviou um ofício a Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário) pedindo para que a assistente social do presídio tente levar o rapaz para casa.

João vira mistério

Segundo o juiz, a “troca de presos” não é novidade e outros casos já aconteceram no Estado, mas dessa forma há um ineditismo. “Já vi alguns casos. De uma irmã que usava o documento da outra e também quando a uso de documentos falsos. Mas o que aconteceu nesse caso ainda não sei”, contou. “Por isso pedi também para a polícia esclarecer as circunstâncias da prisão. Para saber como ele foi identificado como Weslley”, detalhou Mário José.

Mesmo com outra pessoa cumprindo pena em seu lugar, o verdadeiro Weslley continua foragido e é procurado pela polícia. “A defesa tinha se comprometido a apresentá-lo. Mas ele ainda não procurou a polícia”, finalizou o juiz.

João já está livre. Mas, agora, virou mistério. Por volta das 13h30 desta sexta-feira ele deixou o local onde passou quase 5 meses injustamente.

Uma equipe social do sistema penal do Estado, por determinação judicial, o acompanhou, para tentar localizar a família. Sem sucesso, João foi para o Centro POP (Centro de Referência Especializado à População em Situação de Rua), e deixou o local rumo ao Cetremi (Centro de Triagem e Encaminhamento do Migrante).

No lugar, segundo a reportagem apurou, ficou bastante agitado. Foi, então, foi levado à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Tiradentes, onde receberia medicação e seria encaminhado para tratamento psiquiátrico, por apresentar comportamento que indicou essa necessidade. De lá, João conseguiu fugir, alcançando uma liberdade visível apenas para ele mesmo.

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